Doença cardíaca e depressão

É compreensível que a maioria das pessoas fique muito chocada quando acometida por uma doença séria. Isto não é menos verdadeiro quando se trata de uma doença que atinge um órgão vital e central como o coração e, portanto, é normal passar por uma crise nessa situação.

No entanto, uma crise é uma condição que passará relativamente rápido, após a qual aprendemos a nos ajustar às novas circunstâncias. A maioria das pessoas tem força para ajustar-se a novas situações e alguns de nós até percebemos que crescemos e amadurecemos em conseqüência de uma crise.

Mas o que acontece quando a crise em vez de passar apenas continua e torna-se uma depressão? A crise então não nos proporciona mais desenvolvimento nos tornando mais fortes e maduros. Ao invés disso entramos em uma espiral negativa que nos empurra para uma condição depressiva crônica que absorve tanto nossa vitalidade quanto nossa disposição.

A depressão é comum entre pacientes cardíacos

Em nossa cultura é amplamente aceito que pacientes tenham depressão associada a doenças físicas. A depressão é muito comum entre pacientes que sofrem de doença cardíaca e, portanto, é freqüentemente considerada como uma reação normal.

Estudos indicam que aproximadamente 20% dos pacientes internados com doença cardíaca isquêmica desenvolvem depressão grave enquanto mais de 30% apresentam depressão leve após receberem alta. A situação é semelhante para pacientes ambulatoriais com doença cardíaca isquêmica (doença cardíaca com falta de oxigênio no coração). Dados de pesquisas indicam que a depressão neste grupo de pacientes freqüentemente não é tratada e geralmente não é diagnosticada, isto é, não é detectada.

Nos últimos 10-15 anos o número de resultados da pesquisa que ligam a depressão e a doença cardíaca isquêmica tem aumentado significativamente. A depressão foi identificada como fator de risco para o desenvolvimento de doença cardíaca isquêmica e como fator de risco na evolução da doença cardíaca. Foi verificado que pacientes cardíacos com depressão têm maior taxa de óbito que pacientes cardíacos que não apresentam depressão. A depressão é, portanto, uma doença que também deve ser tratada em pacientes cardiopatas.

Aumentos da taxa de óbito

As pesquisas dos últimos 10 anos indicam que a depressão em pacientes que apresentam doenças cardíacas isquêmicas aumenta a taxa de óbito de 3-4 vezes. Pacientes cardíacos deprimidos, portanto, morrem 3 a 4 vezes mais que aqueles que não mostram nenhum sinal de depressão durante os primeiros seis meses após a doença cardíaca ter sido diagnosticada.

Este aumento não está limitado a uma depressão grave, mas também ocorre em pacientes cardíacos com depressões leves. Pesquisas têm mostrado que o efeito negativo da depressão na doença cardíaca isquêmica é quase tão grande quanto o efeito de outros fatores negativos como tabagismo, pressão alta, grau de esclerose e o efeito da capacidade do coração bombear sangue de modo eficaz.

Outros testes mostram um efeito negativo semelhante da depressão após uma trombose cerebral. Os exames ainda indicam que se você é um pouco frágil psicologicamente e vulnerável - sem ser de fato deprimido – isso também pode torná-lo suscetível a desenvolver doença cardíaca isquêmica e trombose cerebral.

A relação não está completamente clara

As ligações biológicas que podem explicar a relação entre a depressão e a doença cardíaca isquêmica não foram completamente explicadas, mas os dados da pesquisa indicam vários mecanismos biológicos possíveis. Entre os fatores que são centrais para o desenvolvimento da doença na combinação de depressão e doença cardíaca isquêmica são:

  • aumento de atividade no sistema nervoso central
  • redução da capacidade do coração variar a velocidade e força com que ele bate
  • ativação das plaquetas sangüíneas, facilitando a formação de coágulos sangüíneos

A hipótese de que a depressão possa causar um aumento da atividade das plaquetas sangüíneas é central para a relação entre a depressão e o óbito em conseqüência da doença cardíaca isquêmica. O efeito da depressão no risco de óbito em conseqüência da doença cardíaca isquêmica deve ser estudado supostamente à luz do esforço a que o corpo é exposto devido ao estresse. Sofrer simultaneamente de doença cardíaca e depressão é uma das situações mais estressantes pela qual uma pessoa pode passar. Se observarmos o efeito que o estresse pode ter no corpo de uma pessoa normal e saudável, podemos começar a imaginar porque o estresse causado pela depressão pode ser evidentemente perigoso para um paciente cardiopata.

Os efeitos do estresse

A resposta humana ao estresse – isto é, nossa reação a efeitos estressantes – é primeiramente adaptada a uma vida em um mundo que parecia completamente diferente de como é hoje. Vivíamos em um mundo onde a capacidade para reagir rápida e efetivamente era de fundamental importância para evitarmos nossa morte. Além disso, essa habilidade era um pré-requisito para que fôssemos capazes de prover nosso sustento.

Muitos mil anos depois, essa é a mesma reação que ocorre quando uma pessoa fica estressada:

  • A produção de adrenalina aumenta de modo a reagirmos rápido
  • O nível de ácidos graxos no sangue aumenta para que tenhamos mais “combustível” disponível
  • A pressão arterial sobe
  • O coração bate mais rápido e com a força máxima para que sejamos capazes de ter desempenho físico
  • As plaquetas sangüíneas são ativadas e se preparam para reparar possíveis danos

 

O grande problema hoje, no entanto, é que nós não vamos caçar nem nos encontramos em situações de batalha. Nós estamos provavelmente deitados em uma cama de hospital ou nos cuidando em casa, aguardando nossa recuperação, e a reação do nosso corpo é, portanto, completamente inapropriada. Esta é provavelmente a razão pela qual a depressão e o nível elevado de estresse que ela causa têm tais conseqüências negativas para o paciente cardiopata.

O Conhecimento é importante

A própria depressão é uma doença muito desagradável com conseqüências dramáticas para a qualidade de vida tanto de pacientes como de suas famílias. Mas a depressão também aumenta os custos dos serviços de saúde e, além disso, afeta a capacidade do paciente de seguir as orientações do médico tanto em relação à administração dos medicamentos quanto em relação às mudanças recomendadas nos hábitos de vida, por exemplo, hábitos alimentares, parar de fumar e exercícios. A depressão é, portanto, algo que não interessa apenas aos psiquiatras.

Todas as conseqüências que ocorrem como resultado da depressão e ansiedade em pacientes cardiopatas são bem sérias. Por isso também é importante transmitir esse conhecimento a outros setores do serviço de saúde para que as complicações psicológicas sejam identificadas e tratadas – primeiramente aos especialistas, que evidentemente atendem estes pacientes.

 

 

 

Última atualização:01/10/2009